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Diante da queda na popularidade nesse começo de mandato, o presidente Jair Bolsonaro tomou decisões que, em outras épocas, chamaria de populismo do PT. Da intervenção no preço do diesel na Petrobrás, até anúncio da 13ª parcela do Bolsa Família, o presidente se afasta do discurso liberal na economia que o alçou ao cargo e se aproxima das massas eleitorais.

Exemplos desses movimentos foram dados na última semana, quando o presidente - em função da marca de 100 dias de gestão - aventou novidades como o 13º para beneficiários do Bolsa Família, cancelamento da licitação de radares em rodovias federais, possibilidade de dobrar o número de pontos necessários para o cancelamento da carteira de motoristas e, por fim, interviu na política de preços da Petrobrás para barrar aumento de 5,7% no diesel.

As decisões, na avaliação de especialistas, têm um efeito bastante positivo entre as massas, mas quebra o discurso de liberal na economia que o ministro Paulo Guedes tenta construir. “Em outros tempos, Bolsonaro chamaria essas medidas de ações populistas do PT para manter as pessoas como massa de manobra”, afirmou o professor de gestão de políticas públicas, Ricardo Grosso.

No que diz respeito ao mercado, o professor de economia e especialista em commodities, Sérgio Ribeiro, conta que a decisão de Bolsonaro se assemelha, e muito, a de Dilma Rousseff. “Temos na história exemplos claros de que congelar artificialmente preços é certeza do fracasso”, disse ele, lembrando que quando houve a greve dos caminhoneiros, em maio de 2018, o governo Temer congelou os aumentos por um tempo pré-definido, e custeou a diferença o Tesouro.

“Recebi notas de corretoras dizendo que se essa medida de intervenção continuar o governo flerta a parte ruim do protecionismo de Dilma Rousseff”, afirmou o economista.

Questionado sobre a similaridade com o PT, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, foi enfático: "No governo Dilma roubaram mesmo, é diferente. Esse é um governo sério, o nosso não rouba. Não é por causa da inflação [que o governo de Dilma intervia] era porque a Dilma roubou, junto com o governo Lula", declarou. No final da tarde de sexta-feira Bolsonaro confirmou ter ligado para o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco. "Eu liguei para o presidente, sim. Me surpreendi com o reajuste de 5,7%. Não vou ser intervencionista. Não vou praticar a política que fizeram no passado, mas quero os números da Petrobras", afirmou.

"Convoquei para terça-feira (16) todos da Petrobras para me esclarecer o porquê dos 5,7% quando a inflação projetada para este ano está abaixo de 5%. Só isso e mais nada. Se me convencerem, tudo bem. Se não me convencerem, vamos dar a resposta adequada a vocês", afirmou Bolsonaro.

Se é, ou não é, parecido com o feito por Dilma Rousseff pouco importa para o mercado, que como reação tirou R$ 32 bilhões no valor de mercado da Petrobrás. “O presidente disse que quer conversar sobre o aumento, já que a inflação não chega a 5%, mas ele desconsidera a alta mensal no preço do barril que independe da atividade economia dentro do País”, lembra Ribeiro.

Nesse sentido, o Vice-diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional (FMI), Krishna Srinivasan ressaltou que a política de preços da Petrobras vinha em trajetória positiva, mas é impossível dizer nesse momento como a ação de Bolsonaro vai refletir no mercado internacional.

Medo da greve

Após a decisão de Bolsonaro, Lorenzoni admitiu que a ação tem em vista também mitigar uma nova greve dos caminhoneiros. Vale lembrar que ano passado Bolsonaro apoiou a paralisação. "Temos uma série de problemas na operação, principalmente no dos caminhoneiros autônomos. Um deles é o diesel, que ainda não foi adequadamente equacionado", afirmou. "A gente precisa de tempo para enfrentar a questão do monopólio da Petrobras, do oligopólio do varejo. Tem muitos anos para desfazer e 100 dias é pouco”, disse.