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As entidades empresariais ainda não manifestaram apoio oficial a nenhum dos candidatos à Presidência da República. Nem vão fazê-lo porque preferem cobrar uma pauta de reivindicações diretamente de quem for eleito. Mas é consenso em propostas já encaminhadas aos presidenciáveis a retomada do crescimento econômico, com maior responsabilidade fiscal e aprovação de reformas. No entanto, não abrem mão de medidas para redução de tributos pagos pelas empresas.

De acordo com alguns setores do empresariado nacional, um perfil mais alinhado ao centro-esquerda e à direita é o preferido, por conta da defesa que fazem de privatizações, reforma tributária e principalmente da redução dos encargos fiscais. Quem mais se encaixa nesse modelo, entre os nomes com viabilidade eleitoral, é o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, por ter abraçado as principais bandeiras da classe.

Uma frase de Alckmin foi endeusada pelos empresários por significar redução de tributos: “Vou reduzir o Imposto de Renda da Pessoa Jurídica. Veja que nos EUA, o presidente Trump reduziu o imposto corporativo. Temos de estimular novos investimentos”, disse o ex-governador paulista, referindo-se ao presidente norte-americano Donald Trump, em evento realizado da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Coincidentemente, é uma das pautas elencadas pela CNI em documento entregue aos candidatos que participaram de sabatinas promovidas pela entidade. O argumento é que essa tributação é uma das maiores do mundo, deixando o Brasil atrás de 177 países nesse quesito, segundo estudos levantados nos encontros. Alckmin também melhorou sua imagem junto ao empresariado ao prometer em encontros reservados abrir o mercado do Brasil ao exterior na medida em que aumentar a competitividade da indústria nacional.

Essa é uma das principais reivindicações da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). A associação quer uma reforma tributária que desonere investimentos produtivos e exportações, a folha de pagamentos e aumente o prazo de recolhimento de tributos. “O próximo presidente da República vai ter que negociar com o Congresso, inclusive para fazer reforma política, como defendemos”, disse ao DCI o presidente da Abimaq, José Carlos Marchesan, já apontando outra qualidade necessária: bom trânsito no Congresso.

Para a Amcham Brasil, o próximo presidente deve assumir a redução do custo para implantar um programa de integridade tributária. Alega que em nenhum lugar do mundo, pagar impostos é tão demorado como no Brasil, aponta um conselheiro. “As empresas gastam cerca de 2600 horas por ano para cumprir as obrigações fiscais, colocando o país no último lugar em um ranking mundial sobre esse quesito”, destaca a entidade.

O forte setor do agronegócio também tem demandas. Entre as cobranças estão que o Estado assuma uma série de responsabilidades, como pagamento pela preservação e serviços ambientais, além de melhorias nas área de logística, tributos e tecnologia. Mais genérico, o presidente da Câmara Brasileira da Indústria de Construção (Abic), José Carlos Martins, diz que o segmento vai defender quem prestigie a geração de emprego.

Outros perfis

Atrás do tucano, vem Jair Bolsonaro (PSL-RJ) na preferência do empresariado, por ter revisto seu perfil estatizante e nacionalista e haver admitido a privatização da Petrobras, além de regras mais flexíveis do que as previstas na reforma trabalhista aprovada em 2017. Mas o candidato que lidera as pesquisas de intenção de voto nos cenário sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apresenta fragilidade por não ter feito alianças. A mesma incapacidade se aplica a Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e Álvaro Dias (Podemos), que atraíram poucos partidos às suas chapas.

Há, no empresariado, correntes simpáticas a Ciro e Marina, por terem feito manifestações a favor da retomada do desenvolvimento. Mas enfrentam obstáculos depois de terem se manifestado contra a lei da reforma trabalhista: Ciro prometeu uma revisão e Marina admitiu aprimorar a legislação. Outro consenso é o candidato do PT. Seja ele quem for, Lula ou seu atual vice, Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, o nome está fora das opções do empresariado.

A reação contra um candidato do PT entre os empresariado se deve, em especial, à defesa veemente que o partido faz da revogação da lei da reforma trabalhista, que foi uma das principais bandeiras da classe empresarial no ano passado. A aversão cresceu mais ainda depois de Haddad ter defendido a taxação dos lucros e dividendos das empresas.

Bandeiras antigas

Para o cientista político Jairo Pimentel, da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, o perfil ideal para as empresas não mudou nas últimas eleições. “A maioria das promessas já foram feitas nas campanhas passadas e esse quadro dificilmente vai mudar porque vai ter pouca renovação no Congresso.” Em linhas gerais, acrescentou Pimentel, as entidades empresariais se voltam para candidatos que pregam a redução e isenções de tributos, aumento do consumo e a ampliação das privatizações.