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No dia em que a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet voltou a criticar o desmatamento na Amazônia, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, minimizou a preocupação da alta comissária dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU).

Salles foi o principal convidado de um almoço-debate promovido pelo Grupo de Líderes Empresarias (Lide), ontem (9), na capital paulista. Sem citar Bachelet diretamente, o ministro disse que todas as atitudes em resposta ao aumento das queimadas já foram tomadas. “A tendência já é de controle”, garantiu.

O Brasil foi um dos 40 países citados durante a 42ª sessão do Conselho dos Direitos Humanos da ONU, em Genebra, ocasião em que Michelle Bachelet disse estar profundamente preocupada com a aceleração drástica das queimadas que podem ter consequências catastróficas para a humanidade como um todo, com piores efeitos para mulheres, homens e crianças que vivem nessas áreas, inclusive indígenas.

Segundo Salles, o governo federal determinou inédita operação de garantia da Lei e da Ordem ambiental, colocando à disposição dos Estados mais de 4 mil homens no emprego de ações por parte das Forças Armadas, diversas aeronaves e investimento significativo para o combate ao desmatamento ilegal.

O ministro afirmou também que Amazônia tem 84% de seu bioma conservado e que fez isso por méritos próprios. Referindo-se a governos que antecederam o do presidente Jair Bolsonaro (PSL), Salles enfatizou que “quase nada” foi feito na Amazônia nos últimos anos. De acordo com ele, a falta de regularização de atividades de exploração da Amazônia, que poderiam ser realizadas dentro da legalidade e em conformidade com parâmetros ambientais, é o verdadeiro problema que atrapalha o desenvolvimento econômico sustentável da região. “A regulamentação fundiária é pré-condição para que se tenha possibilidade de implantar responsabilidade para cuidar do que está lá.”

“Como vamos dar dinamismo econômico para aquela região sem entender de uma vez por todas que a agenda da bioeconomia e da biodiversidade precisa se materializar?”, perguntou aos empresários da plateia, mencionando reportagem recente publicado no Wall Street Journal sobre 51% das queimadas na floresta ocorrerem em áreas sem definição de titularidade, o que, na avaliação do ministro abre espaço para insegurança jurídica e para o desmatamento.

Questionado sobre empresas que pararam de comprar produtos brasileiros por causa das queimadas, o ministro disse que o Brasil deve apostar na comunicação e em mostrar que a imagem do País no exterior não corresponde à realidade. “Nossa obrigação é esclarecer, trazer dados, o máximo de informação”, afirmou.

Acordo de Paris

Anfitrião do evento, o chairman do Lide, Luiz Fernando Furlan, observou que no momento em que o Brasil é o grande protagonista na questão do meio ambiente, é importante lembrar que o País foi um dos primeiros signatários do Acordo de Paris ao se comprometer com metas concretas de redução de emissões de gases do efeito estufa. “E vem cumprindo essas metas”, disse.

Salles enfatizou que o mundo inteiro assumiu posições no Acordo de Paris. “Diria que as do Brasil foram as mais audaciosas e estamos cumprindo de maneira exemplar”. Segundo ele, países que apontam o dedo para o Brasil já disseram que não vão cumprir suas metas. “E os vilões somos nós?”

O acordo prevê pagamentos de US$ 100 bilhões por ano de países desenvolvidos para países em desenvolvimento. “O Brasil pode receber crédito de carbono, pagamento por serviços ambientais. Se prestamos serviços ambientais para o mundo, nada mais natural do que recebermos por ele”, afirmou, aplaudido pela plateia.