Publicado em

Com receita de R$ 38,7 bilhões no primeiro trimestre de 2018 – alta de 5,1% ante igual período do ano passado –, o setor de franchising considera o modelo de multifranquias como estratégico para expansão de negócios no mercado brasileiro. Como principais entraves nesse horizonte, estão a falta de planejamento e profissionalização dos gestores.

De acordo com estudos realizados pela Associação Brasileira de Franchising (ABF), em 2017, o percentual de multifranqueados – proprietários de franquias de diferentes marcas ou segmentos – era de 43%. Neste ano, houve aumento de 11 pontos percentuais, chegando a 54% de empresários adotando esse modelo.

“Ao se tornar um multifranqueado, o empresário consegue diluir aos poucos seus custos fixos com a abertura de unidades de outras marcas e diversificar suas operações”, afirma o professor de economia da FEA-USP, Eugênio Bitti.

Segundo ele, os critérios mais utilizados pelos franqueadores para avaliar a possibilidade de concessão de uma nova unidade da marca ao empresário – que já administra uma franquia – voltam-se para as pessoas que apresentam bom desempenho; aqueles que já são responsáveis por mais de uma unidade; localização geográfica; e, por fim, acesso a recursos financeiros.

A pesquisa da ABF diz que 34,7% dos franqueadores permitem diversificação do portfólio por meio da gestão de outras operações em marcas distintas; 25,5% não controla esse tipo de iniciativa; 19,9% eventualmente permite; 18,4% não aceita a medida; e 1,5% incentiva estas ações.

O estudo da ABF, feito em parceria com o Grupo de Estudos de Franquias (Franstrat), da USP, elenca quatro categorias estratégicas que compõem o modelo de multifranquias. A primeira delas, com 57,52% de presença no setor, é nomeada como Sequencial Não Projetado, a qual o franqueado abre novas unidades conforme o desempenho apresentado.

Em seguida, compondo 22,57% do mercado, vem o Desenvolvedor de Área – adotado por aqueles que recebem uma determinada região para explorar com lojas próprias. Já o conceito Sequencial Projetado, destinado àqueles franqueadores e franqueados que já pré-estabeleceram o plano de expansão de lojas, é utilizado por 10,89% do setor.

Por fim, ainda incipiente no cenário de franquias brasileiro (4,76%), está o conceito de Master Franquado, no qual o empresário explora uma certa área com lojas da própria marca ou subfranqueando unidades pelo território nacional.

Ainda diante da fraca participação desse conceito no setor de franchising, o professor Bitti explica que, no Brasil, o Master Franqueado não “deslanchou” pela falta de maturidade do mercado brasileiro, em termos jurídicos e institucionais, quando comparado, por exemplo, ao avanço desse modelo no exterior.

Em paralelo a isso, o presidente da ABF, Altino Cristofoletti, ressalta a importância de planejamento e profissionalização dos empresários na hora de decidir por modelos de expansão. “O que era tendência, agora é realidade. Estratégias como esta têm que ser acompanhadas de planejamento conforme o modelo de negócio da franquia”, diz.

Cristofoletti ainda complementa o raciocínio e afirma que é “fundamental” priorizar a estrutura da empresa, o nível de profissionalização e gestão de pessoas no momento de adotar ações como esta.

Exemplo disso, segundo a gerente de inteligência de mercado da ABF, Vanessa Bretas, pode ser verificado no segmento de franquias de educação, que “ainda está passando por ajustes em suas operações e sofreram com a falta de profissionalização” nos anos de recessão econômica.

De acordo com a pesquisa divulgada pela entidade, os serviços educacionais apresentaram crescimento de apenas 0,3% entre o primeiro trimestre de 2018 e o mesmo período do ano passado.

No panorama geral do segmento de franchising, a ABF projeta crescimento nominal de 7% a 8% em termos de faturamento para este ano, e alta de 3% no número de unidades.

Na prática

Multifranqueado das redes Ecoville, especializada em produtos de limpeza; O Boticário, da área de cosméticos e perfumes; e Rei do Mate, do ramo alimentício, Roberto Perez ressalta que a diversificação de negócios traz sinergia entre as iniciativas, mesmo que elas sejam de segmentos diferentes.

“O benefício é levar as boas práticas de uma franquia para outra e, consequentemente, melhorar cada uma delas. É uma troca que gera retorno”, afirma o empresário.

Ainda de acordo com ele, “às vezes, um determinado tipo de negócio não está bem, mas o outro setor, sim, por isso, existe essa segurança de operar com vários modelos ao mesmo tempo”, comenta.

Como estratégia inicial, Perez conta que assume a responsabilidade de administrar o novo negócio até a unidade se estruturar e, por fim, até que tenha algum gestor de sua confiança para “tocar” a administração do ponto de venda.

“Em cada área da franquia tenho um a dois supervisores, além de ter uma equipe de auditoria responsável pela vistoria de todas as lojas. É um trabalho árduo, mas que para mim é muito gratificante”, argumenta o empresário.

Ainda nessa perspectiva ele diz que “a vantagem é que você não está aplicando o seu dinheiro em um único negócio, ou seja, não está colocando todos os ovos na mesma cesta.”