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Aventada como estímulo inicial para reaquecer a economia ano passado, a liberação dos recursos do FGTS aos trabalhadores brasileiros expôs a dificuldade do varejo de caminhar com as próprias pernas. Em julho de 2017, quando o efeito do recurso era sentindo nas lojas, o volume de vendas no comércio foi 1% maior que em julho de 2018.

O dado faz parte da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) e mostra que os segmentos que mais puxaram para baixo o desempenho foram os livros, jornais e revistas (-10,1%), combustíveis e lubrificantes (-9,2%), tecidos e calçados (-8,4), e móveis e eletrodomésticos (-6,9%). Na comparação entre julho e junho de 2018, os varejistas viram as vendas recuarem cerca de 0,5% – terceira queda mensal seguida.

“A liberação do saque do FGTS serviu para engordar a base do ano passado. Uma parte desses recursos foi de destinada pelos consumidores ao segmento de moda e vestuário”, afirmou o economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Emílio Alfieri.

De acordo com ele, a renda extraordinária em 2017 maquiou, em parte, o frágil desempenho do comércio. Para Alfieri, o desempenho negativo do varejo de julho deste ano ante igual período de 2017 evidencia também o receio de parte da população brasileira em relação às perspectivas de melhora efetiva no mercado de trabalho.

“Outro fator determinante nesse resultado negativo está ligado aos níveis de desemprego. Além disso, quem conseguiu trabalho está com renda menor e a necessidade de renegociar as dívidas”, afirmou, destacando que grande parte dos rendimentos dos brasileiros está sendo canalizada para a poupança. Em agosto, de acordo com os dados do Banco Central (BC), o saldo da tradicional caderneta atingiu o recorde de R$ 5,8 bilhões.

Ainda segundo o economista, o consumo das famílias brasileiros, pode ter sido “postergado” para datas comemorativas com maior apelo promocional, como por exemplo Natal e Black Friday.

Revendo crescimento

Diante deste turbilhão em que passa o varejo, o segmento têxtil revisou para baixo suas perspectivas de crescimento de 3,5% para 1% este ano. “Temos duas análises. A primeira diz respeito à instabilidade na questão do emprego; e a segunda está ligada a questão climática”, afirmou o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, destacando o fato de que as baixas temperaturas não chegaram a tempo de “movimentar” as coleções de inverno.

Pimentel cultiva ainda certo ceticismo sobre as estimativas “positivas” de um bom desempenho nos períodos festivos até o final do ano. “Isso nos da a expectativa de terminar o ano no zero a zero, mas, de todo o modo, finalizar 2018 desta maneira não tem graça nenhuma”, considerou.

Por fim, ele diz que, mesmo com uma certa “frustração” na evolução das vendas para este ano, nos próximos meses haverá esforço para atrair mais consumidores para a área de vestuário e calçados.

Dólar e eleições

Segundo o chefe da divisão econômica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fábio Bentes, “o terceiro trimestre vai ser fraco do ponto de vista do consumo das famílias com a inflação subindo, o dólar em outro patamar e incertezas políticas”. Com isso, a CNC revisou a estimativa de alta de 4,5% para 4,3% no ano.

De acordo com análise da entidade, a queda do comércio teria sido maior se não fosse o crescimento 1,7% no segmento de hiper e supermercados. Outros ramos que registraram variação positiva, no varejo ampliado, foram o comércio de veículos (16,9%) e farmácias (5,5%) – veja mais no gráfico.