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A Casas Bahia , maior cadeia varejista de eletroeletrônicos e móveis do Brasil, está estudando o lançamento de ações em bolsa para financiar sua expansão. A família Klein, proprietária da rede Casas Bahia, sediada em São Caetano do Sul (SP), não estabeleceu uma data para a realização da Oferta Pública Inicial (OPI), disse Michael Klein, diretor financeiro da empresa. Entre as possíveis alternativas à venda de ações no Brasil ou no exterior está a comercialização de bônus, que poderiam ser convertidos em ações. "Estamos estudando todas as alternativas que temos à disposição. Precisamos sentir a receptividade dos investidores", disse Klein.Uma Oferta Pública Inicial pode reduzir a dependência das Casas Bahia de recorrer aos lucros e às tomadas de empréstimos para financiar sua expansão no Brasil, a maior economia da América do Sul, disseram analistas como Marcio Kawassaki, da Fator Corretora . Segundo ele, este processo de venda de ações, que no mínimo sai 0,5% mais barato que buscar dinheiro em bancos, "já é lucro".Alexandre Zanata, professor de Finanças do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), diz que se a empresa lançar suas ações no mercado é um fator positivo para o País, pois demonstra a tendência de alavancar as operações. "Ela lança as suas ações para o mercado porque tem de crescer e acredita no seu crescimento. A empresa vai ter de lutar para ter lucro e para que as ações sejam valorizadas no mercado. O investidor compra as ações sempre se baseando na expectativa de lucro", diz. Ele acredita que a empresa terá vantagens ao entrar no mercado de ações porque estará participando de um mercado de crédito bastante seleto. "As pessoas vão estar comprando ações da empresa e ela estará dividindo o lucro e o risco com as pessoas que comprarem as ações".O recorde de baixa da taxa de desemprego, o aumento de aproximadamente 6% nos salários registrado no ano passado e a disparada de 33% da concessão de crédito desde janeiro de 2003 impulsionaram os lucros das varejistas de eletrodomésticos em geral, cujas vendas estão crescendo a um ritmo três vezes mais acelerado do que as vendas do setor de varejo como um todo.DinamismoOs investidores teriam interesse em comprar ações das Casas Bahia com base nas perspectivas de crescimento da empresa e do País, acrescentou Kawassaki. O índice referencial de ações Bovespa mais do que triplicou desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu o cargo, no dia primeiro de janeiro de 2003."A Oferta Pública Inicial das Casas Bahia seria um impulso ao mercado de ações brasileiro", disse Kawassaki, que analisa empresas de bens de consumo e de varejo para a Fator, a maior corretora de valores brasileira. "Esse setor tem um dos históricos de crescimento mais dinâmico do País e seu futuro é promissor", analisa. Ele comenta que se a Casas Bahia abrir o seu capital o impacto no mercado seria extremamente positivo. "É a maior empresa do setor dela. Também seria benéfico se o Magazine Luiza entrasse, pois teríamos as três maiores empresas do setor, porque a Globex , que controla o Ponto Frio , já está na Bovespa, e isto traria maior transparência para o mercado de capitais".Na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) não há registro das Casas Bahia como uma empresa de capital aberto, o que inviabiliza o registro para negociação de ações na Bovespa. Mas, segundo a assessoria de imprensa da CVM, o prazo para registrar a companhia como capital aberto, se a documentação estiver em ordem, é de dois meses. Para os analistas, o processo para se negociar ações na Bovespa é rápido. O que é demorado é o processo anterior ao registro, pois a empresa precisa contratar bancos e corretoras para fazer avaliação nos ativos, ver quantas ações serão lançadas e se existe a demanda no mercado. Segundo os analistas, este processo pode demorar anos, caso do Magazine Luiza, que abriria o capital em 2004, mas adiou para 2006.De acordo com a Bovespa, toda nova empresa que abrir o seu capital deve necessariamente começar pelos Novos Mercados (NM), ou seja, segundo a entidade, este é um ambiente mais adequado para que as empresas que abram o seu capital reduzam seus custos de captação de recursos e passem uma maior transparência nas informações e uma maior segurança para os seus investidores.Segundo os analistas, não é possível calcular o valor exato de quanto mais barato é para a empresa captar recursos através de sua abertura de capital no mercado de ações do que se fosse pegar um empréstimo em um banco, mas dizem que as vantagens para a empresa são inúmeras. Kawassaki lembra que o custo de buscar dinheiro com venda de ação é pelo menos 0,5% menor que buscar em empréstimos bancários."No banco ela negocia taxas de financiamento, agora no mercado de ações ela consegue sócios para o seu empreendimento, que serão remunerados pelo próprio lucro do negócio, através de dividendos ou juros sobre o capital próprio", diz Kawassaki.O professor Alexandre Zanata acrescenta que se capitalizar através do mercado de ações é extremamente vantajoso para a empresa. "Se ela for a uma financeira e captar mais de R$ 1 milhão em crédito terá de pagar juros sobre isto. Agora, emitindo ações na bolsa, ela só vai pagar sobre os dividendos. Os dividendos que a empresa vai ter de pagar é se tiver lucro, pois os dividendos serão pagos mediante o auferido".Nos últimos dois anos, o poder de compra dos brasileiros aumentou devido à valorização de 27% do real em relação ao dólar norte-americano, que reduziu o custo de vários produtos, que vão de DVDs importados a utensílios de cozinha. Klein prevê que a receita das Casas Bahia cresça 33% este ano e cerca de 28% em 2006, alta que justifica a realização da expansão."Nossa base de clientes está crescendo satisfatoriamente. E ela exige esforços de expansão ágeis e continuados", disse Klein, filho de Samuel Klein, o fundador das Casas Bahia.A empresa pretende encerrar este ano com 500 pontos-de-venda e abrir outros 100 em 2006. As Casas Bahia contabilizavam 400 pontos-de-venda até o final de 2004. A empresa pretende mais do que dobrar seu quadro de funcionários, para 65.000, até o final de 2006, a partir de cerca de 32.000 empregados do ano passado.Redução dos jurosOs preços dos eletrodomésticos, especialmente dos eletroeletrônicos, devem recuar este ano e no próximo devido à valorização do real, disse Klein. Os preços de refrigeradores, batedeiras e outros eletrodomésticos caíram cerca de 20% este ano.A Casas Bahia prevê que seus clientes ampliarão o uso de linhas de crédito no ano que vem devido à estimada queda da taxa básica de juros, ou taxa Selic. A Selic deve cair para "menos de" 18% este ano, disse Klein, e recuará para até 13% até o final de 2006, disse ele. Além da taxa de juros, a inadimplência dos consumidores também deve diminuir no ano que vem, após ter aumentado e alcançado o pico de 9% das vendas em 2005, disse Klein. O número de prestações não-quitadas deve cair para 8% em 2006, disse ele.Atualmente, a Globex Utilidades SA, segunda maior rede varejista de eletrodomésticos do Brasil, é a única do setor no País a ter ações comercializadas em bolsa.Kawassaki disse que o Fator classifica as ações da Globex como de "desempenho inferior à média do mercado". As ações da empresa subiram 1,5%, para R$ 10, tendo como base a última sexta-feira (21).Kawassaki tem uma meta de preço que chega a R$ 11 para as ações da Globex este ano. No 1º semestre deste ano, empresas brasileiras levantaram R$ 5,7 bilhões (US$ 2,5 bilhões) com a venda de ações.