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A Açúcar Guarani fechou no último dia 25 um acordo que a torna a primeira companhia brasileira de açúcar e álcool com atividades industriais na África. Controlada pelo grupo francês Tereos, a Guarani adquiriu 50% da holding SHL, que detém 91,1% da Companhia de Sena, a maior fabricante de açúcar de Moçambique.

O Tereos está de olho no fornecimento de açúcar à União Européia (UE) com tarifa zero e no potencial de melhorar as atividades da Sena com a tecnologia e o conhecimento brasileiro na cana-de-açúcar. Além disso, a operação garante ao grupo uma posição privilegiada para inserir na África a melhor tecnologia de produção de etanol de cana do mundo: a brasileira.

O grupo de usinas não comenta o investimento por estar em período de silêncio. A empresa protocolou seu pedido de abertura de capital junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Mas na minuta de prospecto de oferta de ações encaminhada à CVM, a Guarani já considera em sua capitalização um endividamento de R$ 128 milhões oriundos da empresa adquirida. A operação não foi financiada com recursos em nome da Guarani.

A Sena fica em Marromeu, na província moçambicana de Zambezi, e moeu 654,2 mil toneladas de cana na safra 2006/2007. A produção foi de 20 mil toneladas de açúcar refinado e 49,5 mil toneladas do produto bruto.

A principal oportunidade vista pela Guarani no negócio, segundo diz a própria empresa na minuta do prospecto, é exportar açúcar de Marromeu para a Europa a partir de setembro de 2009. A idéia é aproveitar a experiência do Tereos com o programa de importações da UE isentas de tarifa chamado Everything But Arms (Tudo Menos Armas) para incentivar países em desenvolvimento.

"Toda a estrutura de subsídios da Europa para o açúcar deverá ser transferida para novos produtos, como etanol ou biodiesel, e a produção do bloco está caindo. Isso abre espaço para o açúcar de outros lugares e, obviamente, para os produtores que colocarem o produto mais barato na UE", avalia o analista Gil Barabach, especialista em Açúcar e Bioenergia da consultoria Safras & Mercado.

Mercado africano

Moçambique consome hoje cerca de 50% das 250 mil toneladas de açúcar que produz atualmente, e exporta o restante. A demanda interna dos países africanos também atrai investidores brasileiros, já que diversas nações do continente são importadoras do produto refinado na União Européia. Segundo o DCI apurou, um consórcio de empresas do País já está plantando cana em Angola para a formação dos viveiros necessários à implantação da usina de olho na janela que está sendo gerada no mercado local com a redução das exportações européias.

"Há dúvidas quanto a se o acesso privilegiado para o açúcar africano na UE vai perdurar quando o continente tiver uma produção volumosa, por isso o investimento está voltado inicialmente ao mercado interno", afirma uma fonte ligada à operação. O grupo aguarda apenas a liberação burocrática do governo angolano para iniciar o projeto industrial, o que não deve demorar.

O convite para a criação da usina partiu do próprio governo angolano, que cedeu as terras e benefícios com o objetivo de garantir uma oferta de açúcar para abastecer o mercado interno sem ter de recorrer a importações de países mais distantes que a UE.

Oportunidades

Os benefícios estatais também são decisivos para a Sena, que tem o governo de Moçambique como acionista, com 8,9% do capital. A empresa tem um desconto de 80% dos impostos que incidem sobre seu rendimento e isenção fiscal sobre dividendos distribuídos.

Há ainda um acordo que permite à Companhia de Sena a exploração de 91 mil hectares de terras no país africano por um período de 50 anos.

Barabach vê ainda a vantagem de Moçambique estar na costa leste da África, o que reduz os custos com transporte para o fornecimento de açúcar à Ásia, onde há maior crescimento de consumo. No etanol, a utilização da frota moçambicana deve ser regulamentada nos próximos meses.

A Açúcar Guarani se tornou a primeira brasileira de açúcar e álcool com atividades industriais na África. A Guarani adquiriu 50% da holding SHL, que detém 91,1% da Companhia de Sena, de Moçambique.