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SÃO PAULO - Com o exemplo de outras startups que atuam com o conceito de economia colaborativa, os sócios Filipe Ferreira e Janina Kretschmann criaram em São Paulo a Freenetic, empresa que oferece um sistema de compartilhamento de redes de wi-fi.



A ideia surgiu quando os empreendedores ainda eram estudantes, na cidade de Wuppertal, na Alemanha. Próximo à universidade havia uma rua em que todos os bares e restaurantes decidiram colocar o mesmo nome e senha em suas redes de wi-fi, para que os clientes pudessem utilizar em todos os pontos do bairro.



Então, Ferreira pensou que poderia criar um modelo de negócio que permitisse ao dono da rede de wi-fi compartilhá-la com o público - e ter algum retorno com isso. "A maioria das pessoas passa, em média, oito horas fora de casa", observa Ferreira. Nesse período, as redes ficam sem uso. "Nossa ideia é incentivar que donos de redes ociosas compartilhem o sinal, mas que em troca possam ganhar uma renda extra", explica. 



Só que a ideia ficou em banho-maria por um tempo. Ferreira acabou indo para a China para trabalhar como engenheiro na Land Rover. Lá empreendeu outro projeto em paralelo: desenvolveu o aplicativo de fotos Moobf, uma rede de compartilhamento de imagens que se apagam em 60 segundos, porque, segundo o jovem, os aplicativos populares como Instagram e Snapchat eram proibidos naquele país.



Tempos depois voltou ao Brasil e retomou a ideia da rede de wi-fi compartilhada. Criou um protótipo e testou com os amigos. O teste foi um sucesso e o modelo foi apresentado em um concurso da IE Business School. A solução ficou em primeiro lugar no Venture Day, evento da instituição que premiou os empreendedores com um curso de venture capital (capital de risco) em Madri. Hoje a startup tem dois incentivadores responsáveis pelos custos do negócio.



Como funciona



São dois roteadores. O de casa continua privado e seguro. O outro, Freenetic, só pode ser acessado por quem tem um cadastro. Todos os roteadores estão conectados na nuvem, em uma rede segura e controlada da Freenetic. "A startup tem os dados de quem utiliza o serviço em um banco seguro, conforme previsto no marco civil da internet, e com isso conseguimos mensurar quanto volume de dado foi gerado para remunerar a pessoa", explica Ferreira.



Os usuários finais pagam entre R$ 10 e R$ 15 mensais. Cerca de 70% valor é revertido em remuneração para quem concede o sinal, e os outros 30%, para a startup.



O dono da rede pode ainda desligá-la caso queira utilizar a internet para algo que gere uma demanda de dados maior, como assistir a um filme on-line.



Qualquer interessado em compartilhar sua rede pode contatar a Freenetic, mas a startup adianta que priorizará moradores da região central de São Paulo com conexões acima de cinco megabytes, para que o sinal seja bom tanto para quem o concede quando para quem o adquire.



O empreendedor diz que em breve será possível expandir o serviço para toda a cidade, mas, por enquanto, vai focar a região central, pois bairros residenciais, onde o fluxo de pessoas é baixo, oferecem rentabilidade menor. 



Desafios



A regulamentação do serviço poderá ser um desafio. Algumas operadoras não permitem que os usuários revendam o sinal. Ferreira defende que a startup tem o objetivo de ajudar as pessoas, especialmente em tempos de crise, a ter uma renda extra, além de facilitar o acesso da população à internet em um momento no qual as operadoras discutem mudanças na cobrança do serviço.



Mesmo que aconteça a alteração em debate na cobrança de franquia controlada, os planos de Freenetic continuam firmes e os fundadores veem nessa possibilidade a chance de ganhar escala. "Acredito que essas mudanças, se acontecerem mesmo, irão dar um impulso aos nossos negócios, pois os bares e restaurantes que já oferecem wi-fi gratuito poderão continuar fornecendo por meio da Freenetic e ainda ganhar com isso", diz Ferreira.



Fora do Brasil há duas empresas que já atuam no mesmo segmento da Freenetic: a Tsunami Blu, do Vale do Silício, nos Estados Unidos, e a alemã Airfy.



Por aqui, a previsão é que o negócio comece a funcionar até metade de julho. No próximo mês se inicia a rodada de 30 dias de teste com protótipos em São Paulo. Se der tudo certo, a ideia é que o projeto desembarque em outras cidades já no próximo ano.